Não tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente. Quando ingressei nos quadros da Ordem dos Advogados do Brasil, na década de 1980, ele já havia partido. Ainda assim, sempre lhe devotei o mais profundo respeito. Sua trajetória profissional e humana bastava para revelar a grandeza do homem que foi.
Competência, humildade, sensibilidade e elevada cultura jurídica faziam dele um advogado singular, admirado por colegas, clientes e pela comunidade jurídica.
Algum tempo depois, fui contratado para atuar em um antigo processo que ele havia iniciado. Ao abrir aqueles autos, tive a impressão de folhear um capítulo da história da advocacia santarena. Ali estavam petições subscritas por nomes que ajudaram a construir o prestígio de nossa classe, como Reinaldo Fernandes, Ubirajara Bentes de Sousa, Armando Homem, entre outros. Manuseei peças processuais datilografadas em folhas de papel almaço, com linhas intercalares, cuidadosamente redigidas, testemunhando uma época em que a advocacia era exercida com notável rigor técnico e refinamento intelectual.
Tratava-se de uma ação petitória de imissão de posse, envolvendo a famosa “Sombra da Lua”, pertencente ao conhecido Tertuliano e, posteriormente, representada por seu espólio. O processo atravessou décadas até alcançar o desfecho, encontrando-me, ao final, como patrono de uma das partes, tendo, no polo oposto, o estimado colega José Olivar
Entre tantos aspectos que despertavam admiração, impressionava a qualidade de seu peticionamento. O vernáculo era manejado com elegância, precisão e rara beleza. Cada peça revelava não apenas um advogado de excepcional competência, mas um verdadeiro homem de letras. Não surpreende que também fosse poeta de reconhecido talento; sua sensibilidade literária transparecia naturalmente na escrita forense.
O saudoso empresário Paulo Corrêa, para quem tivemos a honra de advogar em momentos distintos, dizia, em tom bem-humorado, que eu lhe fazia lembrar Silvério. Contava que, na véspera de alguma audiência, embora tudo já estivesse previamente ajustado, ele aparecia e perguntava: “É hoje que tu avisas?”. Paulo encerrava a história com uma observação que era, ao mesmo tempo, elogio e reconhecimento: apesar da aparente informalidade, o resultado era sempre exitoso.
Silvério recebia seus clientes e exercia a advocacia na própria residência, entre o canto dos pássaros e um belo jardim. Ali construiu uma forma singular de viver e exercer a profissão. Mais tarde, aquele endereço seria eternizado na Rua Silvério Sirotheau Corrêa, justa homenagem àquele que tanto engrandeceu a advocacia e a vida intelectual de Santarém.
Ao escolhê-lo como patrono na Academia Santarena de Direito, não presto apenas homenagem a um advogado de excepcional competência. Reverencio um homem cuja vida foi marcada pela ética, pela cultura, pela simplicidade e pelo amor ao Direito. Seu legado permanece vivo e continua a inspirar todos aqueles que compreendem a advocacia não apenas como profissão, mas como verdadeiro sacerdócio a serviço da Justiça.
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