Movido por dedicação, paciência e profundo amor à cultura de sua terra, reuniu, ao longo de décadas, a maior coleção particular de arte tapajônica de que se tem notícia, composta por dezenas de milhares de peças arqueológicas, muitas delas raríssimas e de inestimável valor histórico e científico.
Sua residência, na Avenida Adriano Pimentel, ao lado do Uirapuru Hotel, transformou-se em verdadeiro centro de visitação de pesquisadores, arqueólogos, jornalistas, museólogos e autoridades brasileiras e estrangeiras.
Eu ainda cheguei a ver, quando garoto, aquela impressionante coleção misturada aos livros de Direito em sua biblioteca. Ali, na casa do saudoso advogado, pai de meu cunhado Ronaldo Campos, encontrava-se um acervo com mais de 30 mil peças inéditas, várias vezes superior ao existente no Museu Emílio Goeldi, em Belém.
Infelizmente, a falta de sensibilidade dos poderes públicos e a ausência de uma política séria de preservação do patrimônio cultural impediram que esse acervo permanecesse integralmente em Santarém. Grande parte da coleção foi transferida para São Paulo (USP), privando a região de um patrimônio que poderia ter dado origem a um dos mais importantes museus arqueológicos da Amazônia.
No Museu João Fona, restaram apenas os “cacos”, como fundo histórico de uma grandeza que Santarém não soube proteger.
A reportagem de Manuel Dutra, publicada no jornal A Província do Pará, em junho de 1977, retrata, com riqueza de detalhes, a trajetória do colecionador, as dificuldades enfrentadas para preservar o acervo e o desencanto de quem viu o sonho de criar um grande museu em Santarém sucumbir diante da indiferença oficial.
Mais do que uma reportagem, trata-se de verdadeiro documento histórico, que merece ser preservado e conhecido pelas novas gerações, para que erros semelhantes jamais se repitam e para que a memória do povo Tapajó continue viva entre nós.
A leitura dessa matéria, passados quase cinquenta anos, causa inevitável reflexão: Santarém perdeu uma coleção arqueológica de valor incalculável, mas não pode perder também a memória daqueles que lutaram para preservá-la.
Minha revista virtual registra parte dessa história — uma história que pertence não apenas a uma família, mas à memória cultural de Santarém e de toda a Amazônia.
Quem sabe um dia esse extraordinário acervo possa retornar ao seu legítimo berço cultural? Seria uma forma de reparar uma dívida histórica com Santarém e de devolver ao povo tapajônico um fragmento precioso de sua própria identidade.
