Mais uma vez, assistimos a uma cena que, infelizmente, tornou-se frequente na administração pública brasileira: inaugura-se uma obra antes que ela esteja em condições de cumprir integralmente a finalidade para a qual foi concebida.
O Hospital Materno-Infantil foi oficialmente inaugurado em uma cerimônia solene, marcada por discursos, fotografias, aplausos e ampla divulgação. Na mesma oportunidade, o próprio Governo esclareceu que a entrada em funcionamento da unidade ocorreria de forma gradual, com a implantação dos serviços em etapas, até que alcançasse sua plena capacidade operacional.
É justamente aí que reside a reflexão.
Se o próprio Poder Público reconhece que o hospital ainda passará por um processo de implantação até tornar-se plenamente operacional, qual o sentido de realizar uma cerimônia de inauguração antes que a população possa usufruir do serviço para o qual foi construído?
A cerimônia marcou a entrega da obra. O atendimento, porém, ficou para depois.
Não se discute a importância do investimento. Ao contrário, trata-se de uma conquista indispensável para a saúde pública do Baixo Amazonas. Tampouco se critica a opção de colocar a unidade em funcionamento de forma gradual, providência que pode ser tecnicamente recomendável para garantir a segurança dos pacientes, o treinamento das equipes e a adequada organização dos serviços.
A reflexão dirige-se ao verdadeiro significado da inauguração.
Quando se inaugura oficialmente um hospital, cria-se na população a legítima expectativa de que aquela unidade já esteja apta a atender quem dela necessita. Se isso ainda não ocorre, a cerimônia acaba por simbolizar muito mais a entrega do edifício do que a efetiva disponibilização do serviço público.
Enquanto isso, gestantes, crianças e suas famílias continuam recorrendo ao Hospital Municipal, que há muito tempo funciona sob intensa sobrecarga. Médicos, enfermeiros e demais profissionais seguem realizando um trabalho digno de reconhecimento, apesar das conhecidas limitações estruturais da unidade.
A população não espera discursos; espera atendimento. Não espera placas comemorativas; espera portas abertas. Não espera fotografias oficiais; espera profissionais de saúde, equipamentos em funcionamento, medicamentos disponíveis e assistência digna.
Hospital não se inaugura apenas com o corte de uma fita simbólica. Inaugura-se quando recebe seu primeiro paciente em condições de oferecer atendimento seguro, eficiente e contínuo. Antes disso, inaugura-se a obra; o atendimento permanece em implantação.
Na saúde pública, o que salva vidas não é a cerimônia. É o atendimento.
Que o Hospital Materno-Infantil conclua rapidamente todas as etapas necessárias e passe a funcionar em sua plenitude. Nesse dia, a população terá, enfim, não apenas uma obra inaugurada, mas um hospital plenamente entregue à sua missão.
Se ainda restar alguma dúvida, basta visitar a unidade. A realidade, por vezes, fala mais alto do que qualquer discurso.
