domingo, 25 de janeiro de 2026

A difícil arte de dirigir em Santarém

 

Dirigir em Santarém não é tarefa fácil: é exercício diário de paciência. Imperícia e imprudência andam de mãos dadas, como se o trânsito fosse um parque de diversões sem regras.

Condutores seguem ao telefone, ignoram a sinalização e conduzem sem a devida atenção, olvidando a lei da física. Quem deseja chegar inteiro ao destino precisa dirigir por si e pelos outros, essência da direção defensiva. Some-se a isso a embriaguez ao volante, presença recorrente e perigosa, verdadeiro retrato do caos.

Multas, câmeras e blitzes pouco resolvem. O problema é cultural. Falta educação no trânsito, falta empatia, falta noção de coletividade. Muitos motoristas não sabem dirigir; o pedestre, por vezes, também não colabora. A ignorância não se esconde. E, ao fim, de um modo ou de outro, alguém sempre termina, sem esperar, envolvido em acidente. Só Deus na causa.

Não gosto de buzinar. Mas, por vezes, é o único recurso para evitar mal maior. Abusa-se da paciência alheia como se ela fosse infinita. E, se alguém se incomodar, paciência: conflitos no trânsito são faíscas perigosas, capazes de gerar situações inesperadas  e com graves consequências, amigo leitor.

Quando o acidente acontece, como já aconteceu comigo, mesmo com seguro, o prejuízo é evidente. Não há como escapar do dissabor do sinistro, do desgaste do embate e da burocracia administrativa que se segue.

Dirigir bem, por aqui, é mais do que obedecer às regras: é ato de civilidade, empatia e autopreservação. Relevar os erros alheios, evitar o confronto e praticar a direção defensiva não é sinal de fraqueza, mas de sabedoria. A sua paz vale mais do que qualquer razão.

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Mosaico de ideias, lançamento

Creio que você vai gostar do livro. Leitura leve, textos curtos e diversificados — um verdadeiro mosaico de ideias, no melhor sentido da expressão.

Cada texto é uma tessela autônoma, mas, ao final, compõe um conjunto harmônico: reflexões jurídicas, memórias, crônicas do cotidiano, críticas sociais e lampejos de ironia fina, tudo sem cansaço para o leitor. É livro para ler aos poucos — ou de uma sentada só —, daqueles que convidam a abrir ao acaso e sempre encontrar algo que dialogue com a experiência de quem lê.

Em suma: obra acessível, plural e honesta com o propósito que anuncia. Um mosaico, realmente.

Boa leitura. 


terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Promessas requentadas

Com a aproximação de mais um período eleitoral, repete-se um ritual já conhecido do eleitor. Promessas antigas reaparecem como se fossem novas, embaladas por discursos renovados e slogans de ocasião. O tom muda; a realidade, não. A cidade segue refém de um modelo político que privilegia o anúncio em detrimento da entrega.

Obras anunciadas há anos permanecem inacabadas ou deterioradas. O Barbalhão continua sem conclusão, frustrando expectativas do esporte regional. A ponte do Mapiri, ainda de madeira, envelhece sob o peso do abandono. Na Orla, tanto nas imediações do Mascotinho quanto no piso estilizado, os reparos prometidos nunca chegam ao fim. A decantada Rocha Negra permanece restrita ao campo das intenções. O Hospital Regional, por sua vez, arrasta-se entre anúncios, promessas e inaugurações simbólicas.

O padrão é recorrente: promete-se em excesso, executa-se a prestações. Obras são iniciadas sem planejamento consistente, interrompidas sem explicações claras e retomadas apenas quando o calendário eleitoral exige visibilidade. A política do marketing sobrepõe-se à política pública.

O resultado é previsível. Crescem o descrédito institucional e o cansaço social. A população, acostumada ao eterno recomeço, passa a conviver com a precariedade enquanto assiste à repetição do mesmo enredo, eleição após eleição.

Mais do que novas promessas, a cidade precisa de compromisso com a conclusão do que já foi iniciado. Governar não é anunciar. É executar, planejar e prestar contas. O resto é retórica — e a retórica, como se vê, já não convence.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

A velha política

Passou da hora de extirpar do cenário político os candidatos profissionais, que fazem da política partidária meio de vida e instrumento de poder, distanciados do sentido maior do serviço público.
A reeleição, ao cortejar o continuísmo, asfixia a necessária oxigenação do sistema eleitoral, impondo ao cidadão, eleição após eleição, as mesmas figurinhas carimbadas no certame democrático — agora embaladas por discursos reciclados e promessas gastas.
Nomes consumidos pelo decurso do tempo — forjados no clientelismo, na exploração da fé, na cooptação e na compra disfarçada de votos — precisam ceder lugar à renovação, especialmente à juventude, para que a tão proclamada mudança deixe de ser mera retórica e se traduza em efetiva reconfiguração do quadro político-institucional.
A reeleição, além de estimular o continuísmo e o comodismo, consolida práticas nocivas, prolonga relações promíscuas com o poder e fomenta a corrupção, moléstia recorrente onde inexistem alternância, vigilância e responsabilidade republicana.
Impõe-se, portanto, uma nova ordem política, se realmente quisermos transformar o país, prestigiar o bem comum e fortalecer a democracia.
Nesse processo, os partidos políticos desempenham papel fundamental: ou se reinventam como instrumentos autênticos de representação social, ou permanecerão como refúgios de uma velharia que o tempo — e a própria democracia — já deveriam ter expurgado.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Despotismo, não!

A soberania,  que não é absoluta, protege o Estado e a ordem institucional, jamais ditadores, tiranos ou déspotas. Que o povo venezuelano, doravante, possa decidir com liberdade o melhor rumo a seguir. Afinal, soberano é o povo!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Feliz Ano Novo

 Que venha 2026!

Sou advogado por vocação; professor por compromisso; cronista por sensibilidade; amazônida por identidade — sem abdicar da memória nem da palavra.

Tenho prazer em fazer o bem. Sempre defendi o coletivo e lutei para que o cidadão viva com dignidade.

Santarém é o meu lugar no mundo. Meu amor eterno.

Que o novo ano venha com saúde, prosperidade, felicidade e amor no coração.

🥳 Feliz Ano Novo, diletos @migos!

quinta-feira, 25 de dezembro de 2025

Aprendi com o tempo

Hoje, com o passar dos anos, já não carrego urgências inúteis nem disputas que nada acrescentam. O tempo — generoso e severo — ensinou-me a distinguir o essencial do supérfluo, o que permanece daquilo que apenas passa. E tudo, ou quase tudo, passa.

Desejo, tão somente, deixar boas passagens da vida terrena: registros de bondade, gestos simples de fraternidade e palavras que não ferem, mas acolhem. Nada além disso. Talvez menos.

Aprendi que a verdadeira grandeza não está no acúmulo, mas na partilha; não no ruído, mas na escuta; não na vitória sobre o outro, mas na capacidade de caminhar junto. A felicidade, percebo agora, não é um ponto de chegada, mas uma busca cotidiana, feita de pequenos instantes, de afetos sinceros e de paz interior.

Se algo quero legar, que seja a lembrança de alguém que tentou ser justo sem ser duro, firme sem ser insensível, ensinar sem arrogância, humano acima de tudo.

O resto, o tempo se encarrega de levar — ou de sepultar — pois somos todos falíveis, mortais.

Feliz Natal, @migo leitor. 🎄

domingo, 21 de dezembro de 2025

Mosaico de Ideias 💡











Agradeço aos amigos que prestigiaram o lançamento do meu livro “Mosaico de Ideias”.

Os que desejarem adquirir um exemplar poderão fazê-lo em meu escritório, localizado na Avenida Mendonça Furtado, 3421, em frente ao Fórum; em minha residência, na Avenida Presidente Vargas, 956, bairro Santa Clara; ou, nos próximos dias, na livraria do Shopping Tapajós, em Santarém, Pará.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2025

Meus agradecimentos


Recebi, com profunda humildade e sincera gratidão, do Tribunal de Justiça do Pará, a Medalha da Ordem do Mérito Judiciário.

Partilho esta distinção com minha família, com os colegas que caminham comigo e com todos aqueles que reconhecem no Direito uma das mais nobres formas de controle social humanizado, capaz de orientar, equilibrar e pacificar.

Sigo firme — e sereno — no ofício que escolhi para a vida.

Me. José Ronaldo Dias Campos

sábado, 6 de dezembro de 2025

O advogado colecionador

Matéria publicada há algum tempo na revista virtual joseronaldodiascampos.blogspot.com, que ora rememoro pela importância histórica que representa para Santarém. 👇🏽

Houve um tempo, @migo leitor, em que a história do povo tapajônico cabia inteira dentro de uma biblioteca particular. Não era museu, não era acervo público, não era instituição de pesquisa. Era o refúgio silencioso de um advogado: Inácio Ubirajara Bentes de Sousa, figura conhecida na Santarém de outrora, pai do meu cunhado Ronaldo Campos (ex-prefeito de Santarém), homem de hábitos simples e curiosidade refinada.

Lembro-me bem, quando garoto, de adentrar aquela casa da Avenida Adriano Pimentel, ao lado do saudoso Uirapuru Hotel, e ver, entre estantes de livros de Direito, um universo inteiro de barro ancestral. Misturavam-se às páginas de Pontes de Miranda, J. M. de Carvalho Santos e Clóvis Beviláqua as urnas antropomorfas de olhos amendoados, as estatuetas de porte altivo, as cariátides misteriosas, as tangas cerimoniais, os vasos que guardavam o rosto dos mortos.

Era a maior coleção de arte tapajônica do mundo, com mais de trinta mil peças inéditas — número que até hoje causa espanto a arqueólogos e historiadores. Maior, mais vasta e mais representativa que a do próprio Museu Emílio Goeldi, em Belém. A casa do advogado Ubirajara Bentes, ironicamente, abrigava aquilo que o Estado jamais foi capaz de proteger.

Aquele acervo, @migo leitor, não surgiu do acaso. Foi composto peça a peça, visita a visita, escavação a escavação, compra a compra, ao longo de décadas em que a arqueologia amazônica ainda engatinhava. O advogado colecionava não por lucro, mas por fascínio. Guardava, em silêncio, o imaginário de um povo inteiro — o povo tapajó, cujo refinamento estético desafia, ainda hoje, qualquer explicação simplista.

Mas Santarém, terra generosa e, ao mesmo tempo, distraída com seus próprios espelhos d’água, não soube enxergar o tesouro que possuía. A cidade continuou erguendo casas sobre sítios arqueológicos, plantando postes sobre urnas funerárias, enquanto aquele museu íntimo repousava solitário numa sala de biblioteca.

E então, como tantas vezes acontece por estas bandas, veio a perda. A coleção saiu de Santarém — e do Pará — por omissão pública, desinteresse político e absoluta ausência de política cultural. Parte foi adquirida por instituições de fora, como a USP; parte dispersou-se em mãos privadas; e aquilo que poderia ter sido o maior museu arqueológico da Amazônia virou lembrança, saudade e lamento.

No Museu João Fona, restaram apenas “os cacos”, como outrora registrei na revista virtual joseronaldodiascampos.blogspot.com. O acervo conta história, sim; mas conta também o descaso de quem permitiu que tudo fosse embora.

A crônica de Manuel Dutra, publicada em 1977 e resgatada no blog do meu sobrinho Ignácio Ubirajara Bentes de Sousa Neto, o Biroca, já denunciava o fato com precisão jornalística e dor amazônica:

“Um amargurado comprador de caretas na desmemoriada Santarém.”

O título parece metáfora, mas é diagnóstico. Somos, tantas vezes, uma cidade que esquece o que deveria guardar e guarda o que deveria superar. E, ao esquecer, permite que outros levem consigo a alma material da nossa história.

O advogado colecionador não vive mais; a coleção também já não está entre nós. Mas a memória — essa, sim — permanece. Permanece nos relatos de quem viu. Permanece nas peças que hoje repousam em vitrines distantes. Permanece na saudade de um museu que nunca existiu. Permanece, sobretudo, como advertência: patrimônio cultural não é luxo — é raiz.

E raiz que não se cuida, @migo leitor, vira apenas terra solta ao vento.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

O Avanço da Toga sobre o Congresso

 O Avanço da Toga sobre o CongressoA preocupação exposta é pertinente e ecoa um debate recorrente na teoria constitucional contemporânea. O sistema de freios e contrapesos, concebido para equilibrar as funções estatais e evitar a supremacia de um Poder sobre os demais, vem apresentando tensões visíveis quando o Supremo Tribunal Federal passa a ocupar espaços tradicionalmente reservados ao Legislativo.

Nos últimos anos, decisões do STF — muitas delas proferidas em sede de controle concentrado, medidas cautelares monocráticas ou interpretações expansivas da Constituição — têm sido percebidas pela opinião pública como intervenções atípicas na esfera legiferante, produzindo efeitos práticos equivalentes à atuação legislativa. Em paralelo, a relativa paralisia, fragmentação ou mesmo a omissão deliberada do Congresso Nacional em temas sensíveis abre margem para que o Judiciário preencha o vácuo normativo.

Daí decorre a inquietação: quando o equilíbrio se rompe, instala-se risco de assimetria entre os Poderes e de erosão da legitimidade democrática. Não se trata de negar o papel contramajoritário e de vanguarda do STF, mas de reafirmar que a harmonia republicana, prevista no art. 2º da Constituição, pressupõe limites recíprocos, respeito às funções típicas e diálogo institucional.

O ponto central da crítica, portanto, é a percepção de que o Judiciário avança porque o Legislativo recua, comprometendo a arquitetura original do constitucionalismo republicano. O alerta é válido e merece reflexão, sobretudo para evitar que exceções se tornem regra e que a excepcionalidade da jurisdição constitucional se converta em governo de juízes.

A blindagem decorrente da surpreendente decisão monocrática que retirou do Senado a prerrogativa de processar pedidos de impeachment de ministros da Corte foi o estopim desta reflexão.

Sem freios e sem limites, o Supremo vai acabar atropelando o Congresso.

domingo, 23 de novembro de 2025

Patrimônio cultural secular não se licita, se protege

Há lugares que não são apenas construções: são capítulos vivos da nossa própria história. A Garapeira Ypiranga é um deles. Erguida em 1922 por iniciativa privada, com expressa autorização da Intendência Municipal de Santarém, em plena celebração do Centenário da República, ela carrega no próprio nome — Ypiranga — a marca de um país que buscava afirmar sua identidade e projetar seu futuro.

A Garapeira não é um prédio, é uma memória. Um pequeno pedaço da cidade que atravessou século, acompanhando transformações, testemunhando alegrias, acolhendo histórias e guardando silêncios. É patrimônio cultural material e imaterial; é afeto, convivência, tradição. É Santarém na sua expressão mais autêntica.

Dizem que, ali, sob a batuta da família Herbert Farias (leia-se Cacheado), guardiões da receita dos pastéis e da garapa que adoçaram gerações, desfilaram autoridades, artistas, jornalistas, professores e gente de toda parte. Presidentes da República já beberam garapa naquele balcão. E o cidadão simples, aquele que constrói o cotidiano da cidade, bebia ao lado deles. Porque a Garapeira sempre foi isso: um espaço democrático, onde a vida se encontra com a história sem pedir licença.

O Município e o Estado do Pará reconheceram oficialmente sua importância cultural. Não foi à toa. Ali pulsa uma parte profunda da identidade tapajônica. Ali mora um microcosmo do que Santarém tem de mais seu.

E é por isso que causa perplexidade a ideia — tão inoportuna quanto desrespeitosa — de submeter a Garapeira Ypiranga a uma licitação. Um patrimônio secular não se licita: se protege. Não se entrega ao acaso da burocracia: se preserva. Não se trata como um ponto comercial: se cuida como bem de todos.

A Agenda 2030 da ONU, firmada por 193 países, entre eles o Brasil, no ano de 2015, é clara: a proteção do patrimônio cultural é dever do Estado. E a Constituição, nos seus artigos 215 e 216, reafirma esse compromisso. A Garapeira atravessou governos, regimes, constituições (1891, 1934, 1937, 1946, 1967, 1988) e crises sem perder sua alma. Só isso já deveria bastar para garantir-lhe respeito.

Cuidar da Garapeira Ypiranga é um gesto de responsabilidade para com a cidade que fomos, que somos e que deixaremos. É reconhecer que a memória também é infraestrutura; que cultura também é patrimônio; que história também é direito.

Antes de qualquer decisão administrativa, vale lembrar uma verdade simples: a Garapeira não pertence ao poder público; pertence ao povo.

Que o bom senso — esse velho conselheiro que nunca deveria ser aposentado — prevaleça.

sábado, 15 de novembro de 2025

Pensata

Para o crítico, o menor deslize em um texto primoroso é como um fio de cabelo no caviar: macula toda a obra.