O encontro das águas
26 setembro 2026 · 13:52
Por José Ronaldo Dias Campos
Em Santarém, o verão se anuncia de muitas maneiras. As chuvas se tornam escassas, os rios perdem volume e as praias, escondidas durante meses, reaparecem pouco a pouco, renovadas. Para quem nasceu e viveu junto a esse cenário, há ainda outro sinal da estação: o encontro das águas muda de posição diante da cidade.
Costumamos admirar a linha visível que separa o azul-esverdeado do Tapajós do tom barrento do Amazonas. Os dois rios seguem lado a lado, cada qual conservando sua cor por algum tempo, até que as águas se misturem rumo ao mar. Mas essa linha não permanece no mesmo lugar. No verão, o movimento se repete diariamente: chega a hora em que o Amazonas avança, empurra as águas do Tapajós e se aproxima das praias santarenas. Onde antes predominava o azul-esverdeado, passa a predominar o barrento.
Parece que os rios trocam de lugar. O Tapajós, rio dos nossos banhos de infância, cede espaço por algumas horas. O Amazonas, imenso e caudaloso, toma seu lugar: um verdadeiro esbulho possessório entre rios. Mais tarde, as águas voltam a se rearranjar, como fazem desde muito antes de existirmos para contemplá-las.
O ribeirinho conhece bem esse movimento e sabe quando esperá-lo. Observa a coloração, acompanha a correnteza e, quando percebe o avanço do Amazonas, lança a tarrafa ou estende a malhadeira. Na faixa em que as águas se encontram, a pesca costuma ser farta. Há quem veja apenas dois rios de cores distintas; o pescador enxerga também a oportunidade de levar alimento para casa.
Guardo lembranças desse cenário: os banhos no Tapajós límpido, os jogos nas praias que o verão devolvia a Santarém, as redes estendidas e as piracaias que reuniam amigos, violão e conversa ao cair da tarde. Era uma vida simples, cheia de prazer e liberdade. Talvez por isso o encontro dos rios nunca tenha sido, para mim, apenas uma paisagem bonita.
Todos os dias, no tempo certo das águas, o Amazonas avança e modifica a feição da frente de Santarém. Depois recua, e o Tapajós volta a ocupar o espaço que ornamenta a cidade. Nós, que vivemos às margens dos dois rios, aprendemos a reconhecer esse ciclo.
Os mocorongos, como eu, sabem bem do que falo.
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