Como acreditar nas autoridades, sem querer generalizar, evidentemente, diante da sucessão quase cotidiana de escândalos que se espalham pelo país? A sensação que se impõe é a de que os chamados criminosos de colarinho branco perderam qualquer temor da lei. Agem às claras, sem disfarces, como se a ordem jurídica fosse mera formalidade e, pior, como se zombassem da própria sociedade que deveriam respeitar.
A impunidade, quando reiterada, deixa de ser exceção para tornar-se método. Nesse ambiente, instala-se uma inversão inquietante: já não é o infrator quem teme a sanção, mas o cidadão comum que, acuado, mede palavras e silencia para não se ver envolvido em disputas judiciais longas, desgastantes e, por vezes, de feição quase kafkiana.
Esse quadro corrói, pouco a pouco, a confiança nas instituições. O que deveria inspirar segurança passa a gerar desconfiança; o que deveria proteger, intimida. Assim se fragiliza o próprio alicerce do Estado de Direito, que depende, antes de tudo, da crença coletiva na legitimidade de suas estruturas.
Quanto à esperança de mudança pelo voto, embora seja o caminho legítimo, não se pode ignorar as amarras de um sistema profundamente enraizado, que, não raro, condiciona escolhas e limita a real expressão da vontade popular. O processo eleitoral, por si só, não tem se mostrado suficiente para romper ciclos de poder que se perpetuam sob novas roupagens.
Ainda assim, renunciar à esperança seria ceder por completo. O desafio está em transformar a indignação em consciência crítica e vigilante, capaz de exigir responsabilidade, transparência e compromisso com o interesse público. Porque, no fim, é da persistência do cidadão, e não da acomodação, que pode nascer a mudança que hoje parece distante.