quarta-feira, 20 de maio de 2026

O milharal de Vorcaro

O sugestivo “milharal de Vorcaro”, como rotulado, não impressiona apenas pelo volume dos milhões que circularam clandestinamente.

O que chama atenção é a naturalidade com que o dinheiro perdeu o vínculo com o trabalho, a produção ou a própria realidade econômica do país.

Tudo surge em escala desmedida, quase exponencial. Uma prodigalidade obscena, de feição extravagante, sustentada por um capital sem lastro lícito, muito menos moral.

Não se trata apenas de enriquecer, mas de exibir poder, comprar consciências, seduzir autoridades, construir uma rede de blindagem em que a ética se transforma em mercadoria e o silêncio institucional passa a ter preço.

Como na antiga Torre de Babel, ergueu-se um monumento de soberba sustentado pela ilusão da impunidade. Mas toda construção fundada na corrupção carrega, em si mesma, os germes da própria ruína. O problema é que, antes do desabamento, quase sempre é a sociedade quem paga a conta.

Há muita sujeira sob o tapete que ainda precisa vir à tona, mesmo depois de varrida pelo aguardado Acordo de Delação Premiada.

Vou esperar, sentado, que a verdade venha à tona, descortinando os nomes dos envolvidos na sórdida maracutaia.

sábado, 16 de maio de 2026

Trocaram seis por meia duzia - talvez por menos

O que mudou com a substituição da COSANPA pela AEGEA? Na prática, quase nada. Persistem a precariedade do abastecimento e a insatisfação da população.

A diferença percebida pelo consumidor foi o aumento do preço das tarifas, inclusive com cobranças retroativas superiores a cinco anos.

Chega-se ao absurdo de cobrar de residências há muito abastecidas por poços artesianos construídos justamente em razão da escassez de água nas torneiras. 

O cidadão, parte fraca na relação consumerista, paga por um serviço que muitas vezes não recebe. Nem os mortos estão sendo dispensados das cobranças.

O governo, em vez de solucionar um problema histórico, agravou uma situação que já se arrasta há décadas.

O resultado é perverso: população sem água e, ainda por cima, endividada.

quinta-feira, 7 de maio de 2026

Democracia começa em casa

Não permita, amigo leitor, que a nefasta polarização político-partidária transforme sua família em adversários e o seu lar em palanque ideológico. Divergências sempre existirão, sobretudo em uma sociedade democrática, mas elas não podem se sobrepor aos laços de afeto, respeito e convivência.

O debate político, quando saudável, é legítimo e até necessário. Faz parte da liberdade de pensamento e da própria essência do regime democrático. O que se deve evitar é o radicalismo intolerante, que abandona o diálogo para impor verdades absolutas, sufocando a reflexão serena e alimentando ressentimentos.

Se o tema surgir à mesa ou nas rodas familiares, que seja tratado com urbanidade, equilíbrio e respeito recíproco. Ninguém precisa amordaçar o pensamento alheio, tampouco transformar divergências ideológicas em hostilidade pessoal. Conviver civilizadamente com opiniões distintas é demonstração de maturidade democrática e grandeza humana.

O consenso, não nasce da imposição, mas da escuta. E, ainda quando ele não seja alcançado, o respeito mútuo já representa importante vitória da civilidade sobre os excessos da intolerância.

O mesmo deve ocorrer na vida social, na convivência entre amigos, colegas e conhecidos do cotidiano. A divergência política não deve ser motivo para rompimentos, inimizades ou intolerância.

Costumo dizer, para concluir: não perco amigos por pensarem ideologicamente diferente de mim. Respeito o contraditório, a divergência e a liberdade de consciência, porque é justamente dessa convivência plural que se fortalece a verdadeira democracia.

Na política, quase tudo é passageiro. Os afetos, quando preservados pelo respeito, é que verdadeiramente permanecem.

terça-feira, 5 de maio de 2026

Crise de confiança

Como acreditar nas autoridades, sem querer generalizar, evidentemente, diante da sucessão quase cotidiana de escândalos que se espalham pelo país? A sensação que se impõe é a de que os chamados criminosos de colarinho branco perderam qualquer temor da lei. Agem às claras, sem disfarces, como se a ordem jurídica fosse mera formalidade e, pior, como se zombassem da própria sociedade que deveriam respeitar.

A impunidade, quando reiterada, deixa de ser exceção para tornar-se método. Nesse ambiente, instala-se uma inversão inquietante: já não é o infrator quem teme a sanção, mas o cidadão comum que, acuado, mede palavras e silencia para não se ver envolvido em disputas judiciais longas, desgastantes e, por vezes, de feição quase kafkiana.

Esse quadro corrói, pouco a pouco, a confiança nas instituições. O que deveria inspirar segurança passa a gerar desconfiança; o que deveria proteger, intimida. Assim se fragiliza o próprio alicerce do Estado de Direito, que depende, antes de tudo, da crença coletiva na legitimidade de suas estruturas.

Quanto à esperança de mudança pelo voto, embora seja o caminho legítimo, não se pode ignorar as amarras de um sistema profundamente enraizado, que, não raro, condiciona escolhas e limita a real expressão da vontade popular. O processo eleitoral, por si só, não tem se mostrado suficiente para romper ciclos de poder que se perpetuam sob novas roupagens.

Ainda assim, renunciar à esperança seria ceder por completo. O desafio está em transformar a indignação em consciência crítica e vigilante, capaz de exigir responsabilidade, transparência e compromisso com o interesse público. Porque, no fim, é da persistência do cidadão, e não da acomodação, que pode nascer a mudança que hoje parece distante.