segunda-feira, 8 de junho de 2026

Ubirajara Bentes, o advogado colecionador


Poucos santarenos das novas gerações conhecem a extraordinária contribuição prestada pelo advogado Inácio Ubirajara Bentes de Sousa à preservação da memória arqueológica da região do Tapajós.

Movido por dedicação, paciência e profundo amor à cultura de sua terra, reuniu, ao longo de décadas, a maior coleção particular de arte tapajônica de que se tem notícia, composta por dezenas de milhares de peças arqueológicas, muitas delas raríssimas e de inestimável valor histórico e científico.

Sua residência, na Avenida Adriano Pimentel, ao lado do Uirapuru Hotel, transformou-se em verdadeiro centro de visitação de pesquisadores, arqueólogos, jornalistas, museólogos e autoridades brasileiras e estrangeiras.

Eu ainda cheguei a ver, quando garoto, aquela impressionante coleção misturada aos livros de Direito em sua biblioteca. Ali, na casa do saudoso advogado, pai de meu cunhado Ronaldo Campos, encontrava-se um acervo com mais de 30 mil peças inéditas, várias vezes superior ao existente no Museu Emílio Goeldi, em Belém.

Infelizmente, a falta de sensibilidade dos poderes públicos e a ausência de uma política séria de preservação do patrimônio cultural impediram que esse acervo permanecesse integralmente em Santarém. Grande parte da coleção foi transferida para São Paulo (USP), privando a região de um patrimônio que poderia ter dado origem a um dos mais importantes museus arqueológicos da Amazônia.

No Museu João Fona, restaram apenas os “cacos”, como fundo histórico de uma grandeza que Santarém não soube proteger.

A reportagem de Manuel Dutra, publicada no jornal A Província do Pará, em junho de 1977, retrata, com riqueza de detalhes, a trajetória do colecionador, as dificuldades enfrentadas para preservar o acervo e o desencanto de quem viu o sonho de criar um grande museu em Santarém sucumbir diante da indiferença oficial.

Mais do que uma reportagem, trata-se de verdadeiro documento histórico, que merece ser preservado e conhecido pelas novas gerações, para que erros semelhantes jamais se repitam e para que a memória do povo Tapajó continue viva entre nós.

A leitura dessa matéria, passados quase cinquenta anos, causa inevitável reflexão: Santarém perdeu uma coleção arqueológica de valor incalculável, mas não pode perder também a memória daqueles que lutaram para preservá-la.

Minha revista virtual registra parte dessa história — uma história que pertence não apenas a uma família, mas à memória cultural de Santarém e de toda a Amazônia.

Quem sabe um dia esse extraordinário acervo possa retornar ao seu legítimo berço cultural? Seria uma forma de reparar uma dívida histórica com Santarém e de devolver ao povo tapajônico um fragmento precioso de sua própria identidade.


Um comentário:

  1. Memórias do Maicá

    Depois da crítica construtiva que fiz ao péssimo estado das vias de acesso ao Mercado de Peixes do Porto dos Milagres, veio-me à mente a seguinte imagem:

    Quando garoto, há mais de cinquenta anos, percorria esse trajeto margeando o rio para comprar peixe diretamente do pescador, ainda na canoa, nas proximidades do Maicá. Era uma caminhada saudável e prazerosa, em contato com a natureza e com a simplicidade da vida ribeirinha.

    Retornava para casa, habitualmente, com uma cambada de peixes ainda pulsando, recém-saídos das águas do Tapajós. Eram tempos em que o pescado chegava fresco aos jirais dos lares, adquirido sem intermediários. Cada caminhada transformava-se em uma pequena aventura que permanece viva na memória.

    Atualmente, em razão das péssimas condições de trafegabilidade para se chegar ao Porto dos Milagres, lugar de beleza natural inestimável, mudei o itinerário e passei a frequentar o Mapiri, no outro extremo da cidade, que concorre em beleza e fartura com o Maicá, com acesso fácil e panorama agradável.

    Santarém situa-se entre essas duas formosas paisagens, emoldurada pelo encontro das águas do Amazonas, o maior rio do mundo, e do Tapajós, o mais belo, cenário que a natureza nos brindou com rara generosidade.

    Agradeço a Deus o privilégio de ter nascido e de viver em Santarém, a cantada e decantada Pérola do Tapajós.

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