O Poder Judiciário atravessa uma crise que compromete sua credibilidade perante a sociedade, sobretudo quando os abalos parecem emanar de sua própria cúpula. Episódios de grande repercussão sucedem-se com inquietante frequência, envolvendo integrantes da mais alta Corte, com inevitáveis reflexos no cenário institucional e na confiança popular.
Não se trata de crítica leviana, tampouco de inconformismo episódico. O que está em jogo é algo mais profundo: a percepção, cada vez mais difundida, de um distanciamento entre o ideal de Justiça — imparcial, serena e previsível — e certas práticas que, ao menos em aparência, fragilizam esse compromisso.
Falo na condição de advogado, de quem fez do Direito não apenas profissão, mas ofício de vida. Como fiel escudeiro da boa prática jurídica, cultor das instituições e permanente defensor da justiça social, não posso deixar de registrar o desconforto que me aflige. Sinto-me, por vezes, perplexo; em outros momentos, desalentado, como se parte significativa do que aprendi, ensinei e defendi ao longo de décadas perdesse, pouco a pouco, sua consistência.
Ainda assim, não me move o ressentimento, tampouco o temor. Não receio a incompreensão, a crítica ou eventuais retaliações. Aproximo-me dos setenta anos com a serenidade de quem já percorreu longo caminho, construiu sua história e formou sua família. É precisamente essa condição que me impõe um dever: o de não silenciar quando valores essenciais parecem postos à prova.
Sigo, portanto, no labor da advocacia. No cotidiano do meu escritório, oriento minhas filhas, genro, ex-alunos e colegas, mantendo viva a chama de um compromisso que jamais foi meramente técnico, mas essencialmente ético. Persevero no ministério que elegi como propósito de vida, certo de que a advocacia não se limita à defesa de interesses, mas se afirma, sobretudo, como instrumento de preservação do Direito, da ética, e da verdadeira Justiça.
O momento exige reflexão e, mais do que isso, altivez. Coragem para reconhecer falhas, corrigir rumos e reafirmar, com firmeza, os princípios que sustentam o Estado de Direito. O silêncio, nessas horas, não é prudência: é omissão.
E omitir-se, quando a Justiça vacila, não é a melhor opção.
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