terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Resistência e pertencimento

O Tapajós e o ribeirinho se conhecem, se entendem, se completam. Não se trata de mera convivência, mas de pacto silencioso e infindo. O rio que o banha é o mesmo que o conduz, o sustenta e lhe ensina o caminho, a profundeza e o tempo das águas.

Tentaram violar essa ordem natural. Quiseram alterar-lhe a essência, rasgar-lhe o leito, exauri-lo como se fosse simples via de escoamento, mercadoria líquida à disposição do capital estrangeiro. Tocaram o nervo da floresta, e sua alma respondeu a bom termo.

Os povos da mata não silenciaram: índios, ribeirinhos e caboclos ergueram-se sob o sol escaldante e sob a chuva persistente. Resistiram às investidas oficiais e, com dignidade, lograram revogar o malsinado decreto licitatório que pretendia submeter o rio à lógica fria do lucro.

Ali não se defendia apenas água. Defendia-se a vida. Defendia-se a memória. Defendia-se a ancestralidade.

Não fosse a brava resistência tupiniquim, o Tapajós deixaria de ser rio para tornar-se corredor mercantilizado, um curso d’água sem alma, sem história, sem pertencimento. Já não seria nosso, dos amazônidas; seria apenas um canal de exportação.

O Tapajós permanece rio porque seu povo manteve-se firme. E aquilo que tem raiz, memória e pertencimento não se converte em mercadoria.

Enfim, a tentativa de agressão à natureza, perpetrada pelo poder público, despertou a Mboiúna adormecida nas profundezas do majestoso Tapajós.

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