O crachá se perdeu, a memória não
18 outubro 2026 · 19:01
Guardei por muitos anos o crachá da minha participação no Congresso de Reconstrução da União Nacional dos Estudantes, realizado em Salvador, em 1979. Com o tempo, acabei perdendo aquele registro. A memória daqueles dias, porém, permaneceu.
Integrei a delegação do Pará naquele encontro, em um Brasil ainda submetido à ditadura militar. A reconstrução da UNE fazia parte da mobilização pela recuperação das liberdades democráticas e pela retomada da organização estudantil. Para nós, estar ali significava participar de uma luta que ultrapassava os limites das universidades.
Viajamos em ônibus fretado. Logo na chegada à Bahia, o veículo foi retido, o que nos obrigou a pedir carona para nos deslocarmos. Entendíamos que a medida pretendia dificultar nossas atividades. Era uma amostra dos obstáculos que enfrentaríamos para participar do congresso.
Ficamos cerca de três dias em Itapuã, hospedados numa espécie de convento ou casa religiosa. Já não consigo precisar a natureza da instituição, mas guardo a lembrança do lugar que nos acolheu. As reuniões aconteciam no Centro de Convenções de Salvador, onde nos juntávamos a estudantes vindos de diferentes partes do país.
Ainda ressoa na minha memória o canto coletivo de “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré: “Vem, vamos embora, que esperar não é saber…”. Entoados por tantas vozes, aqueles versos expressavam o que nos levava até ali: o desejo de liberdade e a disposição de participar da construção de um país democrático.
Entre os companheiros da delegação paraense, lembro-me de Alcir Gursen de Miranda, meu colega de turma, de Nicias Ribeiro, de Arnaldo Jordy e de João Batista, posteriormente assassinado em Belém, quando já exercia o mandato de deputado estadual. Recordar esses companheiros é devolver nomes e rostos àquela experiência, que também faz parte da minha história.
A tensão daqueles dias deixou uma lembrança particularmente forte: respirei gás lacrimogêneo no espaço de concentração dos estudantes. Na nossa percepção, havia estudantes de direita infiltrados, provocando tumultos para atrair a atenção da polícia. É a esse contexto que associo a intervenção policial e o lançamento do gás. Assim recordo o episódio, com as ressalvas que a passagem do tempo exige quanto aos detalhes e às interpretações.
Também houve solidariedade. Recebemos o incentivo de Raimundo Jinkings, velho militante comunista e livreiro, que mantinha uma livraria próxima à Praça Batista Campos, em Belém. Seu estímulo merece lugar nesta memória, entre os gestos que fortaleceram nossa disposição de participar daquela jornada.
Passadas tantas décadas, algumas circunstâncias perderam nitidez. Permaneceram a viagem, o acolhimento em Itapuã, os companheiros, as reuniões, o canto coletivo e o gás lacrimogêneo. São lembranças que ainda me ligam ao jovem estudante que fui e à esperança de liberdade que compartilhávamos.
O crachá se perdeu. Escrevo estas linhas para que não se perca também a história que ele representava.
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