Garapeira Ypiranga completa 104 anos de adocicada memória
7 setembro 2026 · 13:53
GARAPEIRA YPIRANGA: PATRIMÔNIO CULTURAL SECULAR COMPLETA 104 ANOS
Há lugares que não são apenas construções: são capítulos vivos da nossa própria história. A Garapeira Ypiranga é um deles. Erguida em 1922 por iniciativa privada, com expressa autorização da Intendência Municipal de Santarém, em plena celebração do Centenário da Independência do Brasil, ela carrega no próprio nome — Ypiranga — a marca de um país que buscava afirmar sua identidade e projetar o seu futuro.
A Garapeira não é apenas um prédio; é memória. Um pequeno pedaço da cidade que atravessou mais de um século, acompanhando transformações, testemunhando alegrias, acolhendo histórias e guardando silêncios. É patrimônio cultural material e imaterial; é afeto, convivência e tradição. É Santarém em uma de suas expressões mais autênticas.
Dizem que, ali, sob a batuta da família Herbert Farias — leia-se Cacheado —, guardiã da receita dos pastéis e da garapa que adoçaram gerações, desfilaram autoridades, artistas, jornalistas, professores e gente de toda parte. Presidentes da República já beberam garapa naquele balcão. E o cidadão simples, aquele que constrói diariamente a cidade, bebia ao lado deles. Porque a Garapeira sempre foi isso: um espaço democrático, onde a vida se encontra com a história sem pedir licença.
O Município de Santarém e o Estado do Pará reconheceram oficialmente sua importância cultural. Não foi por acaso. Ali pulsa uma parte profunda da identidade tapajônica. Ali mora um microcosmo do que Santarém tem de mais seu.
E é por isso que causou perplexidade a ideia — tão inoportuna quanto desrespeitosa — de submeter a Garapeira Ypiranga a uma licitação. Um patrimônio secular não se licita: protege-se. Não se entrega ao acaso da burocracia: preserva-se. Não se trata como simples ponto comercial: cuida-se como bem de todos.
A Agenda 2030 da ONU, firmada em 2015 por 193 países, entre eles o Brasil, é clara quanto à necessidade de proteção do patrimônio cultural. A Constituição Federal, em seus artigos 215 e 216, igualmente consagra esse compromisso. A Garapeira atravessou governos, regimes, constituições — 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988 — e crises sem perder sua alma. Só isso já deveria bastar para assegurar-lhe respeito.
Cuidar da Garapeira Ypiranga é um gesto de responsabilidade para com a cidade que fomos, que somos e que deixaremos às futuras gerações. É reconhecer que memória também é infraestrutura; que cultura também é patrimônio; que história também é direito.
Ainda bem que o bom senso — esse velho conselheiro que jamais deveria ser aposentado — prevaleceu.
A Garapeira Ypiranga eternizou-se também no Direito: agora, por decisão judicial transitada em julgado.
Parabéns à Dalila e à família Cacheado, guardiãs de uma tradição que já não pertence apenas a uma família, mas à própria história de Santarém. 🎊🎉🍾🎈
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