Que a política não nos roube a paz
31 outubro 2026 · 23:01
Ao completar 70 anos, resolvi preservar minha tranquilidade, evitando desgastes com embates políticos de cunho partidário ou ideológico. Quero me afastar dessa doentia polarização que assola o país e se espalha pelo mundo. O tempo vivido me ensinou a reconhecer o valor de uma boa conversa e o custo de uma discussão que só deixa ressentimentos.
O tom belicoso dos confrontos nas redes sociais me entristece. Entre ataques e acusações, enfraquecem-se os laços de amizade e compromete-se o bem-estar de quem participa ou simplesmente acompanha essas querelas. Muitas vezes, uma publicação basta para transformar conhecidos em adversários e antigos amigos em pessoas que já não conseguem conversar.
O ódio, o rancor, o revanchismo e a intolerância tomam o lugar do diálogo. Em vez da troca de ideias, multiplicam-se rótulos e ofensas. Antes mesmo de compreender o argumento, procura-se identificar o lado de quem fala. Conforme a preferência partidária, tudo se aprova ou tudo se condena. A conversa se torna amarga e ácida, as relações se desgastam e perdem-se amigos.
Sempre entendi que a divergência pode enriquecer o pensamento. Na advocacia e no magistério, aprendi a ouvir razões contrárias, examinar argumentos e conviver com interpretações distintas. Esse exercício exige disposição para escutar e humildade para admitir que ninguém tem razão em tudo. Quando a ofensa substitui o argumento, essa possibilidade de aprendizado se perde.
Não abro mão das minhas convicções nem do direito de expressá-las. Continuarei atento aos acontecimentos e livre para reconhecer acertos, apontar erros e rever posições. Quero fazê-lo, porém, com serenidade e respeito, sem permitir que as paixões políticas comandem meu humor ou determinem o valor das pessoas com quem convivo.
Aos 70 anos, tenho muitos motivos para cuidar melhor do meu tempo. Há a família, os verdadeiros amigos, os ensinamentos que ainda desejo colher, os textos que pretendo escrever e os projetos que quero realizar. Tudo isso merece minha atenção e minha energia. Não vejo sentido em consumir horas preciosas em discussões das quais ninguém sai mais esclarecido, apenas mais irritado.
Também desejo que minhas manifestações estimulem reflexões e comentários construtivos. A discordância será sempre bem-vinda, desde que acompanhada de respeito. Podemos pensar de maneira diferente e preservar a consideração que temos uns pelos outros.
A divergência faz parte da vida. A hostilidade não precisa fazer parte das nossas relações. Que as diferenças não nos roubem o afeto, o respeito e a alegria de conviver.
Ainda tenho muito a realizar. E quero fazê-lo em paz.
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