O passado construía para o presente e para o futuro
5 setembro 2026 · 19:54
As grandes obras do passado ainda hoje despertam admiração. Algumas são monumentais, verdadeiros testemunhos da capacidade humana de conceber e construir muito além das limitações técnicas de seu tempo. Há edificações seculares e até milenares, como as pirâmides do Egito, que atravessaram gerações e continuam a desafiar o tempo.
Em Santarém, guardadas, naturalmente, as devidas proporções, também encontramos exemplos dessa concepção de construir com os olhos voltados para o futuro. Basta lembrar o Colégio Santa Clara, o Colégio Dom Amando, o Seminário São Pio X, a Catedral de Nossa Senhora da Conceição, o Solar do Barão e o atual Centro Cultural João Fona, antiga sede da Prefeitura Municipal.
São edifícios que não foram concebidos apenas para atender às necessidades imediatas de uma geração. Muitos ocuparam terrenos amplos, receberam sucessivas ampliações e foram pensados para servir durante décadas, quando não por séculos.
O Colégio Santa Clara, fundado em 1913, nasceu de uma iniciativa religiosa e assistencial, e sua construção contou com recursos provenientes da Alemanha, o apoio das missões franciscanas e de benfeitores santarenos. O Colégio Dom Amando, por sua vez, foi fundado em 1943 nas instalações do antigo Hospital São José, desativado no ano anterior, e posteriormente teve sua estrutura ampliada para acompanhar o crescimento da instituição. O Seminário São Pio X, outro marco da educação santarena, foi solenemente inaugurado em 25 de fevereiro de 1962.
A Catedral de Nossa Senhora da Conceição é expressão ainda mais remota dessa permanência histórica. A construção do templo teve início em 1761 e se estendeu por mais de meio século, até sua inauguração, em 1819. O Solar do Barão, por sua vez, remonta ao século XIX e permanece como um dos mais expressivos exemplares da arquitetura histórica santarena.
Outro testemunho eloquente é o atual Centro Cultural João Fona. Sua construção teve início em 1853, foi concluída em 1867 e inaugurada no ano seguinte. Ao longo de sua história, o imponente edifício abrigou importantes instituições públicas, entre elas a Intendência Municipal, a Prefeitura, a Câmara Municipal, o Fórum e a cadeia pública. Em 1991, passou a denominar-se Centro Cultural João Fona, ganhando nova destinação sem perder sua presença marcante na paisagem e na memória de Santarém.
Também o casarão da família Campos, em Aveiro, edificado por meu avô nas últimas décadas do século XIX, continua imponente às margens do rio Tapajós, como testemunho de uma época em que se construía para resistir ao tempo.
Há nesses exemplos uma característica que merece reflexão. Muitas dessas obras nasceram da iniciativa da Igreja, de congregações religiosas, de particulares e de benfeitores, frequentemente movidos por finalidades educacionais, religiosas, assistenciais ou comunitárias. Outras, como o edifício que hoje abriga o Centro Cultural João Fona, resultaram da iniciativa do poder público. Em ambos os casos, havia algo em comum: construía-se não apenas para satisfazer uma necessidade momentânea, mas para servir, consolidar instituições e permanecer.
Talvez esteja aí uma diferença importante entre aquela visão e parte da mentalidade contemporânea. Outrora, planejava-se mais frequentemente pensando na posteridade. Reservavam-se espaços generosos, erguiam-se estruturas destinadas a crescer e procurava-se antecipar necessidades que somente as gerações seguintes experimentariam.
Hoje, quando os terrenos urbanos se tornam cada vez mais valorizados e muitos projetos acabam dimensionados pelas necessidades presentes e pelas limitações financeiras imediatas, aqueles antigos edifícios nos deixam uma lição. Uma grande obra não é apenas aquela que impressiona no momento de sua inauguração, mas, sobretudo, aquela que atravessa o tempo, adapta-se a novas necessidades e continua útil quando seus idealizadores já não estão presentes.
Construir para o presente é uma necessidade. Construir pensando no futuro é deixar um legado.
E Santarém ainda tem a oportunidade de pensar grande. A Rocha Negra pode ser o exemplo contemporâneo dessa visão de futuro: um extraordinário parque natural, preservado para as presentes e futuras gerações.
Ainda dá tempo.
Comentários
Postar um comentário