Sem competência, seriedade, planejamento, compromisso com com o bem comum, nenhuma proposta política prospera. A afirmação, que parece óbvia, torna-se necessária em tempos nos quais o exercício do poder, não raras vezes, se afasta de sua finalidade maior: servir ao interesse público com responsabilidade.
Não se trata apenas de desalento, tampouco de crítica ligeira. O que se observa, com inquietante frequência, é a presença reiterada de candidatos carreiristas, já conhecidos do eleitorado, que fazem da política um projeto pessoal de poder. Pensam em si, no grupo que os cerca e na manutenção de suas posições a qualquer custo, perpetuando um continuísmo improdutivo e viciado, que pouco ou nada acrescenta à vida coletiva.
Esse modelo de permanência prolongada, muitas vezes travestido de experiência, revela, na prática, uma engrenagem que se retroalimenta. O poder deixa de ser instrumento de transformação para se converter em fim em si mesmo. Instala-se, então, um ciclo de estagnação, no qual a renovação de ideias e de práticas é sistematicamente adiada.
Com a devida vênia, o mandato eletivo deveria ser concebido com limites mais rigorosos. O mandato único, admitida, quando muito, uma única reeleição, já seria suficiente para assegurar a alternância e promover a indispensável oxigenação do sistema político. A democracia não se fortalece com a eternização de nomes, mas com a circulação de ideias, com o surgimento de novas lideranças e com o compromisso renovado com o bem comum.
O continuísmo, quando elevado à regra, alimenta a inércia administrativa, incentiva o hábito do “deixar para depois” e contribui para a multiplicação de obras inacabadas, que se tornam símbolos visíveis da ineficiência. Mais grave: em determinados contextos, abre espaço para práticas que tangenciam ou mesmo ingressam no campo da ilicitude, corroendo a confiança da sociedade nas instituições.
É preciso dizer, sem rodeios, que a política não pode ser apropriada como carreira vitalícia, nem convertida em instrumento de autopreservação. O mandato eletivo é, por natureza, transitório. Sua legitimidade decorre do voto, mas sua dignidade nasce do serviço prestado.
Enquanto o eleitor não despertar para essa realidade, distinguindo entre o representante comprometido e o mero ocupante de cargo, o ciclo tende a se repetir. E, como já advertia a sabedoria clássica, a repetição do erro não o transforma em acerto; apenas o consolida.
Romper com o continuísmo viciado é, antes de tudo, um gesto de maturidade democrática. Exige discernimento, coragem e responsabilidade. Mas é caminho necessário para que a política retome sua essência: a de instrumento legítimo de transformação social, orientado pelo interesse público e pela ética que deve nortear a vida republicana.
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